fevereiro 08, 2010
Surfer Blood
Depois do Robert Kelly, do Shea, do Cory, do CJ e do Damien e outros que tais, mais uns quantos surfistas de um lugar improvável: a Flórida.
Mundo Perfeito #40

«Eu saía da água junto aos joelhos dela, a sentir-me translúcida, levíssima como o cefalópode com muitos braços, uma galáxia de braços. Não era para ela, era com ela. Poucas coisas são tão alegres como o egoísmo de duas crianças síntonas no seu brinquedo, que era o mar.
– A partir de certa idade, Maria, o mar rejeita-nos.
– Ora, Sophia, é só a água na cara que a enerva, isso há-de passar.
Não era caridade, era compaixão. Compaixão com ela do que um dia havia de me esperar. O mar hostil.
Íamos já a caminho de casa, do delicioso spaghetti frio que ela temperava com ervas e azeite virgem, alcaparras ou anchovas, do peixe frio marinado em calda, como se come no mar, comido no alpendre, debaixo da renda de heras. E da noite, que já avermelhava no horizonte marinho do almoço tardio.
Da noite, em que vestidas de lavado, cabelo desamarrado, o dela uma sedinha solta, o meu afrodionisíaco, como ela o dizia, roupas longas, soltas e largas, falávamos de tudo e de nada, até às mais altas horas, que lhe convinham, a ela e a mim. Bebíamos vinho branco gelado, não havia retsina, pena para ela, bom para mim, que não gosto de quase nada do que vem da Grécia, excepto a comida e as azeitonas talhadas com alho e tomilho, o que a chocava, mas não tanto quanto seria de esperar.
– Ruínas, por mais belas, amarguram-me, Sophia.
Falávamos na noite, no alpendre quase morno, sem tom nem som. Nenhuma das duas era desesperadamente musical. Não havia música nem nos fazia preciso. Falávamos mais de todos do que de tudo; do tudo eram a arte e a poesia – nem política, nem mundos a mudar. Não era a prudência de pertencermos a facções políticas diferentes. Era a força de indiferenciação da noite, quando as mulheres falam. Falávamos de amores, de filhos, de amigos e desamigados. Desse mundo ginecêutico e caótico, onde tínhamos ambas de manter aparências. Brilhávamos na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo, mortais e imortais, passe a solenidade.
Porque não éramos solenes.»
[in Sophia: Vozes, de Maria Velho da Costa, prefácio ao livro Evocação de Sophia, de Alberto Vaz da Silva, Assírio & Alvim, 2009]. copiado daqui.
fevereiro 05, 2010
Arte de viver

Viver sem fazer nada, cuidar do que não importa,
a gravata de tarde, a carta que escreves
a um amigo, a opinião sobre uma tela, o conteúdo
da palestra, mas que não terás o mau gosto
de querer escrita. Beber, esse prazer efémero.
Amar o sol e aspirar ao Verão, ou o Inverno
lentíssimo que convida à saudade (e donde
essa saudade?). Sair todas as noites, compor
o foulard ao espelho com esmero e carinho,
embriagar-te de beleza quanto puderes, perseguir
e anelar jovens corpos, planuras prodigiosas,
todo o mundo que cabe em tanta euritmia.
Deixar manhãzinha tão fantásticos leitos
e cheirar as mãos enquanto chamas um táxi, gozando
na lembrança, pois falam de véus e delícias,
escondidos lugares e perfumes sem nome,
doces como os corpos. Que frio amanhecer então,
que triste e que belo. Os lençóis te acolherão
de seguida, um tanto ermos, e esperarás pelo sono.
Do dia que virá nada sabes. (Não consultas
oráculos). Hão-de queimar-te fastios e emoções,
tertúlias e belezas, as rosas de um banquete
sumptuoso, e as velhas ruelas, onde se sente
tudo, no verão, como intenso aroma.
Viver sem fazer nada. Cuidar do que não importa.
E se tudo correr mal, se tudo for duro a final,
como Verlaine, saber ser o rei de um palácio de inverno.
Luis Antonio de Villena
(Trad. A.M.)
fevereiro 03, 2010
Note to self
Estava a ver a Liga dos últimos e como sempre, num filme, numa série, num programa, quando aparece mar nas imagens de fundo, estou sempre atento às condições.
E É ASSIM! ALDEIA NOVA TEM ALTAS ONDAS!! Uma esquerda sempre a rolar! É em Leça! Há alguma onda conhecida frente ao campo de futebol?
"Não lhes dão tinto! Se lhes dessem tinto já estavam em primeiro, dão-lhes água! É a desgraça que se vê!" A liga dos últimos é o melhor programa feito em Portugal!
janeiro 27, 2010
Now you know Barry... now you know
Por vezes, quando me sinto pouco inspirado tenho de ver um filme, ou ouvir certa música. Hoje resolvi muita coisa na minha cabeça, vi um dos filmes que mais me marcou na minha vida, e no final, quando fecha o filme esta música aparece:
A música representa um certo alívio no filme, dá-lhe um final pacífico, para um filme muito intenso, Talk Radio, do Oliver Stone e de Eric Bogosian, o único bom filme que eu vi dele, bom, talvez haja um filme do Woody Allen, mas não me lembro agora qual...
A minha analogia – já que o filme é feito de analogias - é que ver o filme serve para compreender a nossa natural atracção para vermos coisas que nos repugnam, ou apaixonar-nos por personagens dúbias, vermos acidentes de automóveis, ou vermos um político por quem nos apaixonámos politicamente no início, enveredar por caminhos dúbios e continuarmos a lutar por ele, ou ver com satisfação alguém lutar por algo que não se sabe muito bem no que se vai tornar, se bom ou mau... Mas a melhor, no caso deste blogue, para compreender porque é que há certo tipo de comentários de ódio que são feitos repetidamente, e continuarão até ele existir. Já foram algumas analogias, já até foi batota...
Se vi este filme centenas de vezes, sabendo quase todas as falas, foi hoje que gostei mais de o ver. Em minha casa, bom som, na minha cadeira, coberto pelo edredon, entre ver e apenas ouvir, no final, quando esta música começa, fiquei de olhos fechados a ouvir de fundo a minha música preferida no final de um filme, porque encaixa de uma maneira simplesmente perfeita, num filme que roça o perfeito também.
Sempre tive este filme em VHS, antes tinha em Beta, mas tanto um como o outro não são muito resistentes à constante repetição, e acho que o Beta até se aguentou mais tempo, justiça lhe seja feita. Não conseguia encontrar em DVD, até que ultimamente me entreguei ao Amazon, que é mais barato que o ar em alguns casos, visto que alguns filmes ficam caros pelos portes de envio, 1.75... Para quem gosta de ver os filmes sem legendas, recomendo vivamente.
Tenho de arranjar um blogue para começar a colocar estas coisas, a partir de agora só surf!!!
Não prometo.
janeiro 20, 2010
janeiro 18, 2010
não esqueçam as ondas
Nos últimos nove meses acho que fui três ou quatro vezes à água e nesse mesmo tempo vivi algumas das mais marcantes e importantes experiencias da minha vida de surfista, sendo que de todas destacaria a oportunidade de conhecer pessoalmente um dos meus ídolos de toda a vida o Sr. Mike Stewart.. Olhando para trás tenho a certeza de que 2009 ficará na minha história como um dos mais importantes e marcantes anos da minha vida. A principal razão para ter ido tão pouco à água prende-se com um outro mergulho, mas desta vez num mar de fraldas e biberões e, coisa terrível que descobri nestes meses, o abominável mundo do soro fisiológico unidoses e o aspirador nasal… Ao mesmo tempo tornei-me dirigente associativo e tive a oportunidade de conhecer por dentro o inexplicável mas fascinante mundo do Surf/Bodyboard de competição. Naturalmente sou um adepto de competição no que aos desportos de ondas diz respeito. Levado pela imprensa, ou não, o facto é que desde os primeiros anos de ondas que acompanho os circuitos, os relatos do heats, as madrugadas na net antes da banda larga a tentar ver os heats do Saca no QS, etc. etc. De há uns tempos para cá assino a Newsletter da ASP e sou um guardador fiel das fotografias que a mesma disponibiliza (para quem não conhece, aconselho) e é aqui que quero chegar. Aqui há dias numa das mais recentes newsletters, creio que sobre o novo critério de julgamento, vinha esta foto de um aéreo do Dane Reynolds. Não sei se por opção do fotografo, se por acaso ou necessidade, nesta foto não existe onda. O efeito é esteticamente apelativo e aumenta o impacto da imagem e da manobra, para todo o surfista fica na foto a sugestão de onda e tão ou mais importante do que a ver é saber que ela lá está. Mas não deixa de ser estranho, frustrante mesmo, esta mutilação do acto de surfar omitindo a onda. Não tenho medo do progresso, da new school, do desbravamento do espaço aéreo, possível apenas para um punhado de poucos, inacessível para a maioria de nós, nem pretendo aderir a uma luta válida como todas as utopias, mas inglória como todas as utopias, pela pureza primordial do gesto de correr ondas, expurgado de notas e de juízes e de patrocinadores, feito apenas de comunhão entre homem e energia do mar. Porém não posso deixar de me perguntar o que será o Surf quando deixar de ser Ondas?
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